A Vila Inglesa
Paranapiacaba – antigo Alto da Serra – lugar místico, de forte energia esotérica, de histórias controversas, que vêm servindo ao longo dos anos para alimentar o imaginário popular. Muito se fala sobre ela, mas onde termina o mito e começa a realidade? É difícil saber! Mas uma coisa é certa: não alimenta apenas o imaginário popular, também alimenta, e muito, a vaidade de um infindável número de “historiadores”, onde cada um quer mostrar mais conhecimento que outros, como se os valores humanos fossem medidos apenas por erudição histórica.
Para falarmos deste local é preciso, antes de mais nada, nos despirmos de toda e qualquer vaidade pessoal, e termos em mente que poderemos ser corrigidos ao longo do tempo.
É com este espírito que farei um breve histórico desta vila, que deveria estar emancipada como município, em vez de pertencer a quem quer que fosse. Sua parte inglesa foi comprada em 2001 pela Prefeitura Municipal de Santo André, e a ela pertence até este ano de 2009. Mas não deveria!
Os andreenses não a compreendem, e jamais a compreenderão. E ao governá-la passam por cima de sua história, como se fosse um vilarejo periférico da grande cidade do ABC. Santo André e Paranapiacaba não podem ser comparadas, e é difícil serem governadas pela mesma mente. Elas têm pulsares próprios e totalmente distintos. Enquanto a primeira é industrial, dinâmica, operária e vibrante, a segunda é histórica, calma, mística, um monumento e um verdadeiro ícone nacional – é digna de ser visitada e admirada!
Vamos a ela!
"Em primeiro lugar é preciso esclarecer o significado de seu nome. Na vila todos dizem que Paranapiacaba significa “local de onde se avista o mar”: “paraná” = mar, e “apiacaba” = vista, visão.
Mas existem outras versões para esta palavra de origem indígena.
Segundo o historiador santista Francisco Martins dos Santos o termo original tupi é “pêranaípiâquaba”, que significa “passagem do caminho do porto do mar”.
O historiador Simão de Vasconcelos aborda esse termo: “Paraná-Picaba” era a denominação que os índios davam à serra de Cubatão.
Em segundo, fala-se, com muito orgulho, que por ocasião da construção da ferrovia a vila abrigou cerca de 5.000 trabalhadores. É preciso muita imaginação para visualizar tanta gente nos parcos barracos que são mostrados em fotos da época. Talvez em todo o trecho serrano, a partir de Cubatão, isso fosse possível. Falando-se apenas da vila, peço licença para contestar.
Em terceiro, diz-se que por aqui nunca trabalharam escravos. De forma direta sim. Afinal, os ingleses eram contra a escravidão, pois precisavam de assalariados que pudessem comprar seus produtos. Mas de forma terceirizada, é quase certo que os escravos andaram por estes lados. Há afirmações concretas, nesse sentido.
Mas, de uma forma ou de outra, a vila surgiu. Surgiu com o nome de Alto da Serra, que manteve até o ano de 1907, quando foi adotado o nome atual. A estação de trem, curiosamente, só teve seu nome trocado em 1945.
O contrato para a construção da ferrovia data de 1856. A partir daí iniciaram-se os trâmites burocráticos, e a construção iniciou-se por volta de 1860. Os trabalhos foram iniciados em várias frentes, e por aqui, sabe-se que os trabalhadores foram se alojando em barracos de pau-a-pique e sapé, de forma desordenada, onde hoje chamamos de Vila Velha, à direita da ferrovia, de quem subia a serra. Fotos ainda do século XIX não deixam dúvidas de que não houve a mínima preocupação com o ordenamento urbano, nem com o meio ambiente. Era necessário fazer a ferrovia; com o resto não havia preocupações.
A preocupação com a parte urbana, estética, salubre, comercial e social surgiu apenas no final daquele século, quando foi necessário ampliar a vila para a construção da 2ª linha do sistema funicular. Nessa ocasião, os ingleses iniciaram a construção da Vila Nova (ou Martin Smith) e, aí sim, procederam ao melhoramento da Vila Velha.
Juntas são conhecidas como Parte Baixa, ou Vila Inglesa. Do outro lado da ferrovia surgiu a Parte Alta, com característica portuguesa, e completamente diferente da primeira. Era a vila dos comerciantes, que para cá vieram acompanhando o grande contingente de trabalhadores. Mas ela será abordada em página especial deste site.
Falando um pouco da Vila Velha, podemos dizer que foi construída morro acima, de forma desordenada, com ruelas, becos e caminhos tortuosos, beirando a ferrovia. E isso faz dela o local mais aconchegante de todos, com um charme especial e uma bela vista do pátio ferroviário.
É pena que seja a mais descuidada de todas - em muitos lugares está praticamente abandonada.
Uma vez que está próxima à “boca da serra”, por onde entra a ferrovia, é a mais visitada pela famosa neblina local.
Bem cuidada, seria um dos locais mais charmosos do Brasil. Poderia ser equiparada à lindíssima Olinda. Nela está situado o complexo que serviu de hospital aos ferroviários, e que prestou grandes serviços. E, no entanto, suas instalações estão em péssimo estado de conservação, não havendo nenhum plano para recuperá-lo. Mais um pedaço de nossa história se esvai devido à parca visão daqueles que deveriam saber que um povo sem respeito a seu passado pouco pode esperar de seu futuro.
Já a Vila Nova ou Martin Smith possui característica completamente diferente.
Ela foi construída de forma simétrica, com planejamento urbano. Até os sentidos norte-sul, leste-oeste foram observados, quase de forma perfeita, em seu arruamento.
Para se conhecer sua evolução arquitetônica é interessante uma visita ao Cdarq - Centro de Documentação de Arquitetura e Urbanismo, na Avenida Campos Salles. Nesse conjunto de 4 antigas residências, o visitante terá excelente aprendizado sobre o desenvolvimento da Vila. Inúmeras maquetes mostram o labor dos arquitetos de então.
A Vila Nova, construída e transformada ao longo dos anos, tanto pelos ingleses quanto pelos que os sucederam, chegou aos dias de hoje ainda majestosa e única em nosso país. Os ingleses foram sucedidos pela Rede Ferroviária Federal, depois pelos moradores (período do abandono) e, finalmente, pela Prefeitura de Santo André. Cada um foi deixando sua marca ao longo do tempo, e esta faceta multicultural é nítida aos nossos olhares.
Os ingleses hierarquizaram suas casas e ruas. Havia casas específicas para diretores, chefes, funcionários com famílias grandes, outros com famílias pequenas e, até, alojamento para solteiros. É interessante, ao se visitar a Vila Nova, observar este aspecto. E hoje a rua mais movimentada da vila é justamente aquela que foi destinada a funcionários menos graduados. Pelo fato de suas casas serem pequenas e geminadas há grande quantidade de moradores e muitas crianças. A Rua Alfredo Maia se destaca nesta pacata e silenciosa vila serrana.
Primitivamente as casas eram de madeira, e assim permaneceram até meados do século XX. Nessa ocasião diversas moradias e edifícios públicos foram construídos em alvenaria pela Rede Ferroviária Federal. Esta, por sua vez, manteve perfeita ordem na vila, até os dias em que entrou em decadência. Após sua privatização em 1997, a vila ficou por conta dos moradores.
Houve um total descaso por parte das autoridades, e o Condephaat, que havia tombado a vila em 1987, mostrou toda sua incompetência. Houve um verdadeiro crime tanto contra a história como com a cultura nacional. Com a privatização e modernização da ferrovia houve um grande número de desempregados; muitas casas foram abandonadas e invadidas, até por pessoas de má-índole. Houve destruição e muita alteração nas residências. Paredes foram derrubadas, divisórias levantadas, anexos e garagens construídos, jardins desfeitos, cercas postas abaixo.
... E tudo estava tombado por um órgão de defesa de nosso patrimônio histórico, artístico, arquitetônico e turístico!!!
Pasmo!!!
Que país é este?
Nos dias atuais, a administração vem restaurando edifícios públicos de grande valor arquitetônico local. Temos exemplos deles no Castelo, no Clube Lyra Serrano, no antigo Mercado e na antiga Padaria do Mendes.
Outras obras e intervenções são realizadas, mas nem sempre com o devido respeito pela história e cultura. É preciso um pouco mais de cuidado.
Também merece destaque o Campo de Futebol Charles Miller, que foi um dos primeiros de nosso país.
Encontramos, ainda, o Museu Ferroviário administrado pela ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (www.abpf.com.br e contato@abpfsp.com.br). Merece atenção, e falarei do mesmo em página especial.
Enfim, Paranapiacaba ainda conserva seu encanto, fazendo por merecer uma cuidadosa visita por parte de todos, porém, fica-se apreensivo diante de alguns fatos que aqui vêm ocorrendo.
Foi dito acima que a administração pública de Santo André encontra dificuldades para a administração desta vila. Aqui vão alguns fatos que reforçam esta afirmação:
O LARGO DOS PADEIROS
Consta ter recebido este nome há muito tempo, quando os ferroviários, tanto da vila quanto dos patamares, iam às compras junto à ferrovia, onde havia a cooperativa local. Ao lado desta os padeiros vendiam seus pães.
O Largo é a porta de entrada da vila inglesa.
Hoje em dia é um local amplo, destinado a lanchonetes, ambulantes, pequenos shows musicais e feirinhas de artesanato. É um local de recepção aos turistas, mas foi totalmente descaracterizado em seu aspecto arquitetônico. Quem o idealizou foi de uma infelicidade tamanha que seria impossível obra mais grotesca no local. Seu palco beira ao ridículo, e foi apelidado pela população de “o carrinho do bebê de Rosemary”.
O PAU-DA-MISSA
É um eucalipto situado no principal acesso da Vila Nova para a ferrovia. Desde tempos memoráveis foi usado como mural para recados. Diz-se que foi um padre que teve a idéia de usá-lo para avisar os fiéis sobre missas e outras atividades religiosas. Isto porque no lado inglês havia um templo anglicano, e a igreja católica teve que ser erigida do outro lado da ferrovia. Com o passar dos anos a população também começou a usá-lo para recados pessoais. É um de nossos monumentos históricos.
Com o passar dos anos foi ficando inclinado em direção ao arruamento e à fiação elétrica. Ao mesmo tempo teve seu tronco atacado por pragas que o prejudicaram. Quais as razões para isso?
Quanto à inclinação, a culpa é dos homens. Trânsito pesado em rua de solo frágil só poderia afundar o calçamento, prejudicando as raízes nesse lado. Além disso, caminhões de mudanças, bebidas e coleta de lixo, batiam em seu tronco, desequilibrando-o mais ainda.
Quanto ao ataque de pragas, sabe-se que qualquer árvore pode receber tratamento fito-sanitário – se os homens assim o desejarem!
Os dois problemas poderiam ter sido resolvidos.
E por que não o foram?
Era uma árvore histórica, imponente, bonita, e servia de abrigo a inúmeros pássaros, porém os administradores de Santo André nunca tiveram a menor sensibilidade com o mesmo. Tiveram cinco anos para tomar providências, e não o fizeram. Em novembro de 2007, seu fim foi decretado – sumariamente!
Mas eis que uma chama de vida e altivez ainda sobrevive!
Apesar do corte brutal que sofreu, o velho eucalipto tenta renascer das cinzas como uma Fênix sagrada.
Esforça-se a manter viva a parte que lhe compete em nossa cultura serrana.
Caso não seja repensada a irresponsabilidade cometida, outras poderão advir. O longo trajeto de nossas civilizações assim nos mostra ... e adverte: “cuidado homens!”
A CASA FOX OU CASA DA MEMÓRIA
Uma antiga residência situada no meio de um jardim foi restaurada para servir de casa da memória.
Poderia, isto sim, ser chamada de “A casa da velha batedeira de bolos”, pois este eletrodoméstico é o único utensílio que talvez possa chamar a atenção de alguém.
Memória do quê?
Simplesmente de nada que valha a pena!
Algumas fotos de moradores, e algumas frases infantis, tais como: “Adoro Paranapiacaba; ela é linda!”
Serve, apenas, para exibir uma verborragia sem fim de quem a idealizou. Painéis em seus cômodos procuram explicar o que é memória, onde se tenta expor toda uma erudição linguística que nada serve para a memória de Paranapiacaba, e de lugar algum.
Não há móveis, decoração, objetos pessoais (além da velha batedeira de bolos), descrição dos costumes de vida, etc. Nem uma palavra sobre seu antigo morador, o grande engenheiro Daniel Fox, que foi um dos mestres da ferrovia inglesa.
Enfim, não serve para nada. É um grande espaço, com um desperdício maior ainda.
Mais uma vez a história foi esquecida nesta linda vila histórica.
Por enquanto, é a vitória do bobagerio. Espera-se que tenha vida curta!
Finalizo, dizendo que toda Paranapiacaba está tombada pelo patrimônio histórico estadual, mas somente a parte inglesa foi comprada pelo município de Santo André, que é proprietário de todos os logradouros e imóveis. Na Parte Alta as propriedades são particulares.
Nesta Parte Baixa o acesso por veículos é feito em estrada de terra a partir da antiga estação de Campo Grande, 6 km antes da vila. |