Década de 1930 – o avanço tenentista se fazia rápido. Getúlio Vargas soterrava de vez o ciclo da cafeicultura brasileira. Era um novo Brasil – se industrializava. E a força opressora esmagava corações – rasgava almas.
Patrícia Galvão – Pagu haveria de conhecer o peso dos braços “dos novos donos da verdade – e do poder”.
Mulher - incansável, inconformada, batalhadora – apaixonada.
Na crença de idéias comunistas que iriam redimir a sociedade proletária explorada, entregou-se de corpo e alma na luta antigetulista. Por 23 vezes conheceu os cárceres. Foi a primeira mulher em nossa terra a conhecê-los por motivos políticos. Lutava por todas as igualdades, e fez de sua vida um marco de tenacidade e coragem ímpares.
Iniciando-se nova década, foi liberta – desiludida abandonou a militância, mas não a luta por todas as justiças.
As marcas das masmorras calaram fundo no corpo, no coração, na alma e mente daquela jovem que, anos antes, apaixonada, se casara com Oswald de Andrade – ícone do modernismo brasileiro.
Ah, paixões!
Tarsila do Amaral perderia seu marido para a maior de todas as inconformadas que por aqui passaram.
Mas paixões passam – e passou!
Foi nos braços de Geraldo Ferraz – também companheiro do pós-22 que Patrícia se encontrou. Dos idos 1935 ao último suspiro foi ele quem esteve a seu lado.
Geraldo haveria de se lembrar de Patrícia ao escrever seu romance policial – Doramundo.
Morador em Santos, jornalista de A Tribuna conheceu a morada das neblinas.
Dias, semanas!
Por quanto tempo aqui andou – possivelmente no esclarecimento de crimes misteriosos que assolavam os ares serranos?
Não importa!
Conheceu a alma do lugar!
Que estranha era Cordilheira!
Gélida, enevoada, chuvosa, soturna, calada.
Passagem para muitos – mas somente passagem.
- Nossa, que lugar!
- Quem será que mora aqui?
- Sei lá! Não dá nem pra saber, o trem já está de partida.
E eles partiam! Por aqui restava, apenas, o silêncio dos trilhos dormentes nos calados dormentes.
- Quem matooou?
- Não sei! Era noite! A neblina!
- Quem morreeeu?
- Um solteiro!
- Mais um?
- Sim, mais um!
- É! Será que essa casada vai ficar feliz por seu marido ter matado por ciúmes, ou vai ficar triste sem o amante?
- Caala a booca idioota! Amanhã pode ser você!
Um, dois, três,.... seis! Quantos?
- Polícia! Viemos esclarecer umas coisinhas que estão acontecendo por aqui. Todo mundo vai abrir o bico e dar com a língua nos dentes. Entenderam!!!
- QUEM FOI???
- Doutor, eu juro, eu não sei de nada!
- Deixe os jornalistas lá fora. A ferrovia não quer escândalo. Tudo tem que ser na surdina. Mas que esse cabra vai falar, vai!
- NÃÃÃOOO!!!
- O próximo!
E Cordilheira se calava. Era terra de silêncio.
Amigos – inimigos.
Casadas – adúlteras.
Geraldo Ferraz foi impiedoso.
“Lugar de vacas e cornos!”
Quem diria!
Cordilheira tão calma – tão bucólica!
Das janelas dos trens!
Tudo era desgraça, traição, horror?
Não, nem tudo!
Havia Dora e Mundo.
No desconsolo de um casamento frustrado Teodora encontrou em Raimundo não a satisfação do corpo, mas o amor profundo que enobrece a alma.
- Perêra, vamu embora daqui!
- Não, eu sô maquinista. Daqui não saio. Eu não vou saber viver em outro lugar.
Coração partido. Jovem. Esperançoso. Pulsando amor. Pulsando entrega. Pulsando por braços.
- Mundo, me leva daqui!
- Eu levo Dora! Mas não sou vagabundo não! Eu vô falar com o Perêra!
- Mundo, você não tem medo? E se ele te matar?
- Tenho não! Nós não vamos sair pelas portas dos fundos. Vamos sair de frente, olhando pra todos. E todos vão saber que a gente se ama. Mas se ama de verdade!
Vamos viver numa cidadezinha do interior - criar nossos filhos.
Na sensibilidade de seres especiais Geraldo Ferraz colocou, talvez, em Dora e Mundo aquele amor que o uniu a Patrícia Galvão – a sua Pagu.
Ao ambientar seu romance no ano de 1939, voltou ao tempo em que sua companheira sofria a mesma força da arrogância policial que os pobres ferroviários estavam conhecendo – e com medo se calavam!
Ao ambientar seu romance em Paranapiacaba mostrou a arrogância de uma empresa elitista e paternalista, que em troca de emprego e de um laser controlado, exigia o silêncio, mantendo distantes os astutos jornalistas.
- Pessoal! O Raimundo está caído nos trilhos!
- É a Dora, deixem ela passar!
- Minha nossa! Mundo, que fizeram com você? Foi o Perêra!
Momentos da vida – conflitos!
Razão e Paixão!
- Perêra, você havia concordado!
- Não se preocupe moça, o Mundo não vai morrer. O carro ambulância vem rápido nos trilhos.
Juntos se foram. Lar, filhos, amor.
Cordilheira ficou só! Parada, a espera.
De quê?
- Vamos embora, já é tarde.
- Tem razão. Amanhã é outro dia.
- E temos que trabalhar.
- É mesmo, e está chegando a neblina.
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O romance Doramundo foi transportado para as telas por João Batista de Andrade em memorável filme, no ano de 1977. No ano seguinte ganhou no Festival de Gramado os prêmios de melhor filme, diretor e roteiro. No elenco Irene Ravache (Dora), Antonio Fagundes (Mundo), Rolando Boldrin (Pereira), Armando Bogus, Olnei Cazarré, Paulo José e outros.
Por ironia do destino seu primeiro roteirista foi Vladimir Herzog, que no ano de 1975 sofreu agruras ainda maiores que Pagu - foi torturado e assassinado nas dependências do Doi/Codi/SP na Rua Tutóia, em mais um regime ditatorial que assolou nosso país.
A ele presto minhas homenagens em lembrança dos dias de luta, esperança, angústia e dor na vida acadêmica na Universidade de São Paulo – USP.
Vlado caminhe sempre – me leve junto – a luta continua!