Um dos mais belos monumentos de São Paulo até os dias de hoje, foi a Estação da Luz o maior marco arquitetônico da primeira estrada de ferro em solo paulista e a principal em todo Brasil – a São Paulo Railway.
Não foi, no entanto, a primeira estação paulistana. Antes dela a capital paulista conheceu duas outras, que se chamavam Estação São Paulo. A primeira deveria ser inaugurada em 06 de setembro de 1865, mas, um acidente, nas proximidades do Rio Tamanduateí, com a composição que partira da estação do Brás vitimou o maquinista e feriu as autoridades que iriam inaugurá-la.
Os planos foram refeitos, e cuidadosa vistoria fez com que a estrada de ferro só fosse oficialmente inaugurada em 16 de fevereiro de 1867. Finalmente a construção idealizada pelo Barão de Mauá, e que ocupava um pequeno prédio na região central da capital pode abrir as portas a uma nova era. Nascia a pujança de São Paulo, que transformaria nosso estado na grande locomotiva brasileira – até os dias de hoje.
Foi de tal forma o sucesso do novo meio de transporte, que por volta de 1880 se fazia necessária a ampliação da recente estação – surgia a segunda Estação São Paulo! Com dois andares e plataformas cobertas ostentou um ar imponente, diferindo, em quase tudo da anterior.
Não havia, no entanto, um momento sequer em que São Paulo deixasse de crescer, e novos estudos foram feitos visando a construção de um imponente edifício, que deveria ser inaugurado juntamente com a entrada em operação da segunda linha férrea.
No ano de 1895, sob a responsabilidade do engenheiro James Fforde, foram iniciadas as obras, com projeto do engenheiro inglês Charles Henry Driver, que mudariam a vida de São Paulo. Próximo da anterior, que ficava na atual Rua Mauá, surgiu grande canteiro de obras, com acentuado rebaixamento de nível, para que as novas linhas não interferissem no tráfego.
No ano de 1900 foi demolida a anterior, e em 1º de março de 1901 os paulistas recebiam de braços abertos o novo e badalado “point” – a Estação da Luz.
Desde seu início ela foi de vital importância para a capital paulista, que naquela época possuía cerca de 240 mil habitantes. Era em suas plataformas que a elite paulistana embarcava para o porto de Santos, rumo à capital federal ou Europa. E todos aqueles que a São Paulo vinham, também por ela passavam.
Semelhante a outras que haviam sido construídas mundo afora, inclusive a de Sidnei na Austrália, em seu estilo vitoriano ela passou a ocupar uma área de 7.500 metros quadrados do Jardim da Luz. Boa parte de sua estrutura veio da Europa: tijolos, madeira (pinho-de-riga irlandês), telhas, cerâmicas e as estruturas de aço que compõem a gare. E o que mais chamava a atenção era seu belo relógio em quatro faces, que, do alto de sua torre, acertava as horas dos apressados paulistanos.
Driver deu a ela um traçado arquitetônico engenhoso e bastante peculiar. Rebaixando o leito ferroviário foi possível a construção sobre as plataformas de três passarelas que permitiam, na época, a travessia de pedestres, carruagens, carroças e cavaleiros de um lado a outro.
Com sua imponência, a todos causava admiração, e foi com profundo pesar que, na madrugada de 06 de novembro de 1946, São Paulo viu grande parte de sua estrutura, juntamente com a torre do relógio, ser consumida por violento incêndio. Este ocorreu somente 2 dias antes da entrega da ferrovia para o governo federal, pois estava findo o contrato de concessão de 90 anos que havia sido concedido por D. Pedro II.
Muito se especula, até os dias de hoje, sobre as causas do incêndio.
Uma vez que os ingleses queriam renovar o contrato, pois obtinham enormes lucros com a concessão, a eles foi, por muitos, atribuida a responsabilidade pelo sinistro.
E por que seriam eles?
Por vingança contra os governos de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra que não quiseram, de forma alguma, a renovação?
Ou porque, pelo contrato assinado, eles teriam que repassar ao governo uma considerável parte do lucro que haviam obtido?
Esta segunda hipótese é corroborada pelo fato de o incêndio ter sido iniciado na seção de contabilidade que os ingleses mantinham em suas instalações, e o mesmo destruiu grande parte da importante documentação contratual e fiscal da ferrovia.
Mas, na ocasião, outra especulação chegou a ser aventada: os judeus seriam os responsáveis. E a razão seria uma só: vingança, pelo fato de os ingleses serem contra o movimento sionista, que pregava a volta do povo judeu para a terra prometida – a Palestina, onde seria estabelecido o Estado de Israel, logo após o término da II Guerra Mundial.
Enquanto nada se prova, entra para o imaginário popular as causas da tragédia.
Mas, fossem quais fossem suas causas, São Paulo não podia parar. Imediatamente foram iniciados os trabalhos de remoção dos escombros, e pouco tempo depois, uma nova estação estava erguida.
Durante as obras de recuperação, foi construído um novo andar do lado leste, mas que manteve o mesmo estilo da fachada. Essa ampliação foi necessária, pois o número de passageiros tinha aumentado 20 vezes.
Anos mais tarde milhões de reais foram gastos em nova modernização. Em 2004, na data de 450 anos de fundação de São Paulo, foi reinaugurada.
O tempo passou, e nossa estação não podia parar no mesmo. De reforma em reforma chegou aos dias de hoje – 2011.
Não possui mais os charmosos trens de longo percurso que impulsionaram e deram vida a esta terra de Anchieta, mas transporta em seus trens metropolitanos milhões de pessoas, que lutam pela pujança da terra.
Outrora, milhares de trabalhadores, vindos em busca de sua terra prometida, pelos trilhos da SPR (posteriormente Estrada de Ferro Santos a Jundiaí) também conheceram as plataformas da esperança.
O sistema metropolitano de São Paulo, através da linha norte-sul, é inconcebível sem a ligação direta com seus trens. E, dentro em breve, a linha amarela dali partirá rumo à zona sul.
Hoje, mais de um século se passou desde sua inauguração, e São Paulo não vive somente de trens – encontramos em seu interior o Museu da Língua Portuguesa, que já atraiu, desde 2006, mais de um milhão de pessoas interessadas em enriquecer sua cultura.
É uma realização imperdível!
Crianças se encantam com o aprendizado, mas jovens e adultos também não deixam de admirá-lo.
Surge, agora, o trem turístico, que de suas plataformas segue, aos sábados, em direção a Jundiaí, e alternadamente aos domingos para Mogi das Cruzes e Paranapiacaba.
É uma festa!
Adultos relembram tempos passados, e para os pequenos a novidade é imperdível.
Assim, os bandeirantes de ontem e de hoje assistem à maior transformação arquitetônica de sua cidade, ao longo do tempo.
Incansável, segue ela o rumo de nossa terra.
Da SPR até os dias de hoje, ela é a nossa Estação da Luz.
Rogério Toledo Arruda
www.avilainglesa.com
17-01-2011