Podemos dizer que a imigração é um dos fenômenos mais antigos da humanidade. Sempre se emigrou, e grandes deslocamentos de populações são registrados pela história ao longo dos séculos.
Interessa-nos, aqui, a fase da emigração moderna, chamada de “grande emigração”, que ocorreu a partir da segunda metade do século XIX, oriunda principalmente do continente europeu e orientada para o Novo Mundo.
São várias as razões que deflagraram o fenômeno, ...no Novo Mundo, a supressão do tráfego negreiro e da escravidão e o desenvolvimento industrial colocavam os países americanos ante a necessidade de mão-de-obra mais especializada, além de algumas questões raciais, como o que ocorre no Brasil.
No Brasil, segundo a historiadora Maria Teresa S. Petrone, a existência de amplas áreas no sul do país - cujas condições climáticas favoreciam a instalação de imigrantes europeus em pequenas propriedades poli cultoras - e o avanço dos cafezais, especialmente em São Paulo, que exigia contínua mão-de-obra, explicam em grande parte a imigração.
A emigração européia do século XIX e início do XX tem, portanto, características que a distinguem de movimentos migratórios anteriores: está ligada ao progresso econômico dos novos continentes e às transformações também econômicas e populacionais do Velho Mundo. Foi também a válvula de escape dos países industrializados, permitindo o desenvolvimento, sem afetar o crescimento demográfico.
No Brasil, desde 1883 a 1891, funcionava a Sociedade Central de Imigração, que defendia a imigração para a pequena propriedade, visando transformar um país de latifundiários escravocratas, em pequenas propriedades poli cultoras, através de um campesinato europeu - idealizado como tipo social. Isto reflete a mentalidade dos liberais da época.
Já a Sociedade Promotora da Imigração, fundada por fazendeiros paulistas entre 1886 e 1896, sob a inspiração do conde de Parnaíba, então Presidente da Província, teve como objetivo promover a vinda de imigrantes para a lavoura cafeeira, tendo recrutado em torno de 120.000 imigrantes, em sua maioria italianos.
Com a República, visou-se a dinamização, com a chegada de imigrantes sob a tutela dos Estados para atender às necessidades regionais. Entretanto, São Paulo manteria a corrente imigratória graças às riquezas produzidas pelo café. Mas a partir de 1907, o governo federal voltaria a assumir o controle da imigração, visto que a maioria dos Estados não podiam arcar com as despesas do movimento imigratório para os núcleos coloniais.
Cresce então a imigração a partir de 1908, e 1913 é um ano de pico! Chegam ao Brasil 192.683 imigrantes pelas estatísticas oficiais, e apesar da intervenção federal, o processo imigratório continua vinculado à administração estadual, e São Paulo se manteria na liderança graças ao contínuo desenvolvimento da lavoura cafeeira, que traria para o estado milhares de imigrantes, sobretudo italianos. Esse fluxo só diminuiria por volta de 1930, depois que Getúlio Vargas criou lei para evitar que excessiva imigração fosse responsável pelo desemprego urbano, principalmente dos nacionais.
As Constituições de 1934 e 1937 reservavam ao Governo Federal o serviço de imigração e colonização, e se estabelece o sistema de quotas, limitando a imigração ao máximo de 2% dos imigrantes de cada nacionalidade, chegados nos últimos 50 anos. Anteriormente, com a crise de 1929, que atingira o Brasil, em especial a economia cafeeira, reduz-se a corrente imigratória e passa então a se avolumar a mão-de-obra nordestina.
A lavoura, a urbanização e a industrialização desempenharam papel importante no Estado de São Paulo, atraindo imigrantes, acenando com a possibilidade de terras, de se tornarem proprietários, e no meio urbano o imigrante participará do incipiente processo de industrialização e dos movimentos operários.
Das correntes imigratórias mais significativas que se fixaram no Estado de São Paulo, podemos citar: a italiana, portuguesa, espanhola e japonesa - esta última iniciada em 1908, graças à intensa propaganda do café feita no Japão, importante mercado consumidor. A maior parte da imigração italiana e nipônica foi subvencionada pelo governo brasileiro e - no caso desta última - a partir de 1926, pelo próprio governo japonês, devido a problemas demográficos e econômicos que se intensificaram.
Quanto à imigração estrangeira para Santos, é preciso inseri-la no contexto da grande imigração para o Brasil e sobretudo para São Paulo, ligada ao desenvolvimento do café, que teve em Santos o seu principal porto exportador. A vila de Santos, fundada no século XVI, mostra até o século XIX uma fisionomia provinciana, cujo marasmo foi um pouco sacudido no século XVIII, quando da exportação do açúcar. Mas só o café do Estado de São Paulo e a necessidade de aparelhar o porto para a exportação cafeeira fariam de Santos uma cidade de imigrantes, graças às atividades profissionais que oferecia. Segundo Arthur Hehl Neiva e L. Fernandes Carneiro, de 1820 a 1929 chegaram ao Brasil 3.523.591 imigrantes de diversas nacionalidades. Desses, o maior número era de italianos: 1.156.472; os portugueses somavam 1.030.666; os espanhóis, 551.385 e os japoneses, 86.577.
OBS.: Esta pesquisadora finaliza seu trabalho com uma fantástica observação a respeito da Serra do Mar e da SPR.
“Ao desembarcar no Porto de Santos, os imigrantes trouxeram muito mais que braços para trabalhar nas lavouras de café e na nascente indústria paulista. Os povos pertencentes às mais de 70 nacionalidades vieram com o sonho de "fazer a América" e acabaram por construir a história e a cultura brasileiras. Deles, o Brasil herdou sobrenomes, idiomas, costumes, comidas, vestimentas, ferramentas e utensílios. Parte desse legado está registrada e guardada no Memorial do Imigrante (no bairro da Mooca em São Paulo- nota do autor).
A maioria chegou ao País em busca de condições dignas de trabalho que permitissem refazer a vida. Fugindo da pobreza e cheias de esperança, milhares de famílias abandonaram suas casas e percorreram enormes distâncias em trens, carroças e a pé, até chegarem aos portos de onde poderiam embarcar para o Brasil. Sem recursos para custear a passagem, receberam subsídio do governo do Estado de São Paulo para pagar a viagem.
Com poucas informações sobre o mundo novo, os imigrantes chegavam sem saber o que iriam encontrar. Depois de enfrentar até 60 dias nos porões de um navio a caminho de uma terra estranha, o alívio tomava conta dos passageiros ao desembarcar em Santos. Essa sensação ia desaparecendo quando avistavam uma imensa muralha verde que parecia intransponível. Mas a primeira vista da Serra do Mar não era o que mais causava estranheza no olhar estrangeiro.
O que ficou marcado em suas memórias foi a viagem de subida rumo à Hospedaria de Imigrantes, na capital. Para a maioria, a viagem rumo a São Paulo começava assim que se colocava o pé em terra firme. Quando o trem iniciava a subida da serra, muitos tinham a impressão de estar em plena selva repleta de bichos. A então densa mata atlântica causava tal pavor que, não raro, os imigrantes se jogavam pela janela na tentativa de retornar a Santos. Não achavam possível haver cidade no meio daquele mato todo. Após vários incidentes, a São Paulo Railway passou a travar os vidros do comboio para evitar fugas. (grifo do autor)
Vencido o susto do primeiro contato, desembarcavam na estação da hospedaria. Exauridos, abriam as bagagens e as depositavam no corredor da estação para tomar sol e amenizar o mofo.”
Agradecendo à pesquisadora, completo meu trabalho esclarecendo que o porto de Santos, por ocasião do início das operações da SPR, não possuía píer, e os navios à vela fundeavam no canal, onde eram carregados por milhares de trabalhadores, através de pranchas de madeira ou pequenos barcos. Era uma cidade insalubre, abafada e mal cheirosa. Mas acabou sendo o destino de muitos imigrantes que ali preferiam ficar. Talvez também ali tenham permanecido pela facilidade que teriam em retornar às suas pátrias, caso aqui não se adaptassem.
Santos também deve muito de seu crescimento aos imigrantes, que por lá ficaram, e acabou se transformando em um dos locais mais aprazíveis para se morar.
Ao braço imigrante e a SPR, São Paulo deve sua força!