Cena do Filme


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Cena do Filmo

 

É interessante a relação do livro “A Carne” com a ferrovia SPR – São Paulo Railway, bem como com a vila de Paranapiacaba e, ainda, com minha pessoa.

Por quê?

O autor, Júlio Ribeiro, nascido em Sabará, Minas Gerais, viveu grande parte de sua vida nas cidades de Sorocaba e São Paulo. Por essa razão, coloca nas aventuras de Manuel Barbosa e Lenita todo o conhecimento que adquiriu dessas regiões.

Nos últimos anos de sua vida, dirigiu-se a Santos, a fim de melhor tratar de sua saúde. Fez a viagem pela ferrovia no ano de 1887. Escritor e jornalista, detalhista, não exitou em se informar sobre a grandiosa obra ferroviária na serra de Paranapiacaba. Nessa época havia apenas a 1ª linha, iniciada em 1860, e inaugurada em 1865.

Não foi, no entanto, apenas o trecho serrano que despertou sua curiosidade. Partindo da estação São Paulo com destino ao Valongo, não perdeu detalhes de tudo em sua volta.

Aquela São Paulo de então, simples e provinciana, com seu casario colonial, permitia que se avistasse ao longe, sem as intermináveis barreiras de concreto dos dias de hoje. E Ribeiro nada perdia!

- Vejam a Cantareira ao fundo, com os meandros do Tietê! Suas várzeas a espera de suas enchentes anuais, desde as cabeceiras lá pelos lados de Mogy das Cruzes.

- Olha que edifício magnífico aquele em construção nos altos do Ypiranga! Será o grande monumento em homenagem à nossa independência. Vai ser uma escola!
Seria!

Acabou se tornando nosso maior museu histórico.

- Ah, que vinhedos lindos estes de São Caetano! Esses italianos sabem fazer as coisas!

E lá ia o trem com sua suarenta Maria Fumaça fumegando por entre campos e matas.

- Está esfriando!

Mas não era para menos! Estava chegando a Ribeirão Pires. Era hora de Mata Atlântica fechada.

E aí, eis que ela surgiu! A igrejinha no alto! Acanhada como o lugarejo a seus pés. Era o Alto da Serra! Um lindo nome, para um mágico lugar. A Paranapiacaba de então era tão pobrezinha, mas já conduzia São Paulo rumo a seu grande destino – a Maria Fumaça de um país prestes a sair de uma capenga monarquia. Mal sabia Júlio Ribeiro, republicano e abolicionista, que a espada de Deodoro logo iria bradar nos ares da Corte.

Atento a tudo, viu se descortinar diante de seus olhos os precipícios dos vales serranos. Se tudo o encantou, algo o deslumbrou – o Grota Funda!

- Que obra fantástica! Só os ingleses poderiam fazer algo tão grandioso e belo.
Hoje, porém, apenas na memória de quem o conheceu! Tudo se perdeu!

- Mas é difícil aguentar este calor abafado e sufocante!

Sim, Júlio, você estava chegando a Cubatão e Santos.

No entanto, se reclamou da fornalha, também encontrou encantos na terra de Braz Cubas, aonde veio a falecer em 11 de novembro de 1890. Viveu menos de um ano em “sua república”, e não viu seu belo trabalho se tornar bandeira nacional. Como obra do destino, o movimento positivista escolheu outro para pavilhão da pátria. Mas São Paulo, local em que viveu, aceitou com orgulho a bandeira das treze listas como símbolo da terra bandeirante.

Júlio Ribeiro, polêmico e anticlerical, legou-nos em sua obra detalhes não só de nossa região e vila, mas também da escravidão de então, em memorável descrição.

Quanto a mim, sou sobrinho de Waldyr Cruz, cearense, que foi casado com uma irmã de meu pai.  No ano de 1952 foi produtor de um dos três filmes que foram baseados na obra de Júlio. Ele foi exibido no Cine Avenida, em Mogi das Cruzes, onde passei minha infância.
 
No intuito de levantar numerário para financiar a obra, meu tio emitiu títulos que foram vendidos a Cr$ 1.000,00 cada, porém o filme não teve a acolhida que se esperava. O prejuízo foi inevitável. Waldyr conseguiu, a muito custo, resgatar honrosamente, todos os títulos. A tarefa levou anos, mas chegou a seu fim.

Das doze cópias que foram feitas, duas estavam em poder de minha tia, que as destruiu, por julgar imoral o filme, e por ser causa de tanto prejuízo financeiro. Por essa razão, poucos documentos restam desse filme, e alguns estão meu poder: são fotos dos estúdios, cenas do filme, alvará do Serviço de Censura de Diversões Públicas, etc.

O filme foi rodado nos estúdios da Brasil Arte Filme, na cidade de Americana/SP. Estes estavam localizados em enorme terreno, onde hoje se encontra o Jardim Brasil, às margens da rodovia Anhanguera, à direita no sentido interior.

 

Paranapiacaba, na visão de Júlio Ribeiro.
Trecho da carta de Manuel Barbosa a Lenita.

“... à esquerda, rápidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se montanhas, visos, picos, paredões, agruras, despedaçamentos de cordilheira.
À direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminência, casebres miseráveis; sobre o rechano uma igrejinha rústica, desgraciosa, malfeita, com três janelas, com dois simulacros de torres, a picar de branco o azul do céu e o escuro da mata.
É o alto da serra...”