“...Afirma-se que ainda viveu alguns anos. Mas ninguém
chegou a saber, quando e em que lugar cerrou os olhos para sempre.
Fôsse onde fôsse, o herói deve ter sido enterrado à beira do Paraíba, no
pendor da colina, num certo ponto em que, entra ano sai ano,
está sempre em flor aquêle viçoso pé de manacá.”
Final da obra: “O enigma de João Ramalho” do escritor cubatense Afonso Schmidt
O Manacá é uma das principais árvores da mata atlântica, pela beleza de sua florada, pela utilização de sua madeira, bem como pela sua importância no ecossistema.
É uma angiosperma da família das Melastomataceae, cientificamente conhecida como Tibouchina mutabilis. A essa mesma família pertence a Quaresmeira (Tibouchina granulosa). Por essa razão possuem características semelhantes que, às vezes, confundem as pessoas, fazendo com que misturem seus nomes.
Popularmente também é conhecida como Cuipeúna, Jacatirão, Pau-de-Flor, Flor-de-Mato, Flor-de-Quaresma e Manacá-Paulista.
É uma planta nativa do Brasil, ocorrendo do Espírito Santo até o Rio Grande do Sul.
Talvez pela larga dispersão em que ocorre, há relatos contraditórios quanto às suas características.
Em relação à sua madeira é opinião corrente que é um tanto mole, se prestando apenas para postes, mourões ou em ambientes internos tais como vigas. Por ser mole pode ser atacada facilmente por cupins, mas há relatos em contrário.
Quanto ao seu porte, também julgo compreensível certas divergências. Aqui na região do ABC paulista, até Paranapiacaba ele atinge mais de dez metros de altura, enquanto em outros lugares há afirmações de que não passa dos seis metros. Isso talvez seja ocasionado por diferenças de solo, umidade, ventilação, insolação, etc.
A maior divergência, no entanto, surge em relação à sua florada. Em nossa região, pude observar, até agora, dois momentos distintos: o primeiro vai de outubro a princípios de dezembro, e o segundo no primeiro trimestre do ano. Em outras regiões há relatos, no entanto, de floradas em todas as outras épocas do ano.
Outro fato marcante quanto à florada está nas cores de suas flores.
Na região temos três visuais: dois deles pouco comuns. Raras plantas apresentam floradas quase vermelhas. Poucas apresentam apenas as cores branca e violeta. E a grande maioria apresenta, ao mesmo tempo, as cores, branca, rosa e violeta.
É interessante observar os relatos totalmente díspares existentes em outras regiões: enquanto uns afirmam que a mesma flor passa do branco para o violeta, outros afirmam exatamente o contrário. Terceiros, por sua vez, afirmam que brancas são flores femininas e as violetas masculinas, ignorando as rosas.
É uma planta pioneira, ou seja, é uma das primeiras a ocupar espaços abertos na mata, quando se inicia a formação da mata secundária.
Este fato pode ser explicado pela enorme quantidade de botões, que vão se abrindo sucessivamente, e porque suas sementes são pequenas, sendo facilmente dispersas pelo vento.
Presta-se muito para paisagismo urbano devido a seu porte e à formação de suas raízes.
Ultimamente temos visto a grande incidência de uma variedade cultivada – o manacá-da-serra-anão. Com porte bem menor, possui florada precoce já no inverno, podendo ser cultivado em vasos.
No portal Mundo das Flores (www.portalmundodasflores.com) há interessante observação de que o manacá é o único alimento das lagartas de determinada borboleta de cor amarela manchada de preto, com cerca de 80 mm de envergadura.
Em relação à florada, resolvi, junto com um amigo, Osmar Losano, também biólogo, tentar esclarecer o ocorrido – e veio a solução.
Usamos um procedimento simples:
PRIMEIRO DIA
1º - amarramos um pequeno barbante com um nó, em várias flores brancas (IMPORTANTE: elas têm bordas roxas);
2º - amarramos barbantes semelhantes, agora com dois nós, nas flores rosas (IMPORTANTE: elas têm bordas violetas);
3º - amarramos barbantes com três nós nas violetas (IMPORTANTE: elas não têm bordas de outra cor).
SEGUNDO DIA
As que tinham um só nó (brancas) tinham ficado rosa;
As que tinham dois nós (rosas) tinham ficado violeta;
As que tinham três nós (violetas) estavam envelhecidas.
TERCEIRO DIA
As que tinham um só nó tinham ficado violetas;
As que tinham dois nós estavam envelhecendo;
As que tinham três nós já estavam caindo.
CONCLUSÃO:
As flores brancas mudam de cor devido à migração do pigmento roxo, de suas bordas, para toda a flor, e estas começam a ficar da cor rosa. E suas bordas passam do roxo para o violeta, que é mais claro.
No dia seguinte, a migração dos pigmentos continua, e toda a flor fica violeta. (Nota: essa migração é a mesma que ocorre em alguns peixes e no camaleão, por exemplo).
E interessante, também, observar os botões das flores. Um dia antes de se abrirem, suas pontas começam a sair de dentro das sépalas, e elas são bem roxas. Essas pontas vão ser as bordas das flores brancas.
Talvez, por isso, algumas pessoas tenham concluído que as flores nasçam roxas.
Basta apanhar alguns botões e cortá-los ao meio: veremos que são brancos.
Também podemos prestar atenção no visual geral das árvores e no chão abaixo: ambos possuem forte predominância violeta.
Quanto ao sexo das flores, é fácil observar que todas possuem os órgãos masculino e feminino (androceu e gineceu).
Enfim, o manacá-da-serra aí está para embelezar a natureza e causar um verdadeiro deleite a quem tem o privilégio de passar alguns minutos observando sua graça, bem como ao enorme número de insetos que o polinizam.
Ele se torna, assim, beleza e fonte de vida na Mata Atlântica.
Não é por menos que é a planta símbolo do Jardim Botânico da cidade de Santos.
O MANACÁ-DA-SERRA
Luciana do Rocio Mallon
O lindo manacá da serra ...
É planta da nova era ,
Que ilumina a primavera ...
Na esperança que não zera !
Ele vive na Mata Atlântica ...
Tão esverdeada e romântica !
Esta planta de alma fremente ...
Gosta de um clima úmido e quente !
O vento que anda pelas prateadas madrugadas ...
Deixa as sua folhas macias e aveludadas !
Suas flores possuem um segredo místico e xereta ...
Por isto suas cores mudam do branco ao violeta !
O lindo manacá da serra ...
É planta da nova era ,
Que ilumina a primavera ...
Na esperança que não zera .