A Primeira Estação Biológica da América do Sul
A Reserva foi criada em 1909 pelo médico e naturalista Hermann Friedrich Albrecht von Ihering, então diretor do Museu Paulista, também conhecido como Museu do Ipiranga.
A história, no entanto, teve início com Mathias Wacket, antigo morador da região, que era coletor de plantas decorativas e amante da natureza. Foi ele quem despertou o interesse do Dr. Ihering para a beleza da região.
Ihering, então, admirado não só com a beleza, mas também com a exuberância da Mata Atlântica, adquiriu de Antonio Thomaz, com recursos próprios e com ajuda de amigos, uma pequena porção de terras com mata e campos nativos, objetivando a criação de uma estação biológica, com parque e horto florestal. Foi também, nessa ocasião que, em data de 26 de abril de 1909, a “The São Paulo Railway Company”, através de seu diretor superintendente, Sr. William Speers, ofereceu um terreno de 4.600 metros quadrados, para a construção das casas do horto.
Na ocasião, o local da reserva era conhecido como Parque Cajuru (que em língua indígena significa “boca da mata”) e seus limites se estendiam entre as estações de Campo Grande e Alto da Serra (antigo nome de Paranapiacaba).
Apesar de seu entusiasmo pelo local, Dr. Ihering, não tendo mais condições financeiras de mantê-lo, cedeu-o ao governo estadual em 1913, que colocou sua administração a cargo do Serviço Florestal da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio. Em 1917-1918 a unidade foi transferida para a Secção de Botânica do Instituto Butantan, da Secretaria do Interior, e sua administração confiada ao Dr. Frederico Carlos Hoehne, trazido especialmente do Rio de Janeiro, para desenvolver um horto botânico denominado Horto Osvaldo Cruz.
Em 1923 a Secção de Botânica retorna para o Museu Paulista, permanecendo, no entanto, na sua direção o Dr. Hoehne.
Em setembro de 1924 foram acrescentadas à Reserva duas glebas de terras, com cerca de 30.600 metros quadrados, cedidas, a título precário, pela “São Paulo Railway”. Dessa forma a Reserva ficou com área, aproximada, de três milhões de metros quadrados, ou seja, cerca de 300 hectares.
Pouco tempo depois, em 1926, por insistência do Dr. Hoehne, a Fazenda do Estado adquiriu do Comendador Manuel Augusto de Oliveira Alfaya 15 alqueires de matas situadas numa das reentrâncias das divisas da Reserva, voltadas para as escarpas da Serra do Mar.
Em 1928, a Reserva Biológica, como dependência da Seção de Botânica do Museu Paulista, foi transferida para o Instituto Biológico, indo fazer parte da 1ª Seção de Botânica e Agronomia.
Em 1938, através do Decreto 9.715 foi criado o Departamento de Botânica do Estado, na Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio e, aí, a Reserva passou em definitivo para o atual Instituto de Botânica, e em 1939 foi inaugurada a Casa do Naturalista.
Na década de 1970, entretanto, a Reserva perdeu 248.588m2 com a construção da rodovia SP-122 e, em 1982, com seus 336 ha., passou a ser chamada de Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba, e foi tombada em 1985.
O naturalista Hoehne, que administrou, com grande dedicação, a Reserva, de 1917 a 1954, comandou a abertura de 27 trilhas que permitiram acesso às áreas de matas e campos. Convidou personalidades ilustres para conhecerem e divulgarem a rica biodiversidade da mata atlântica. Atraiu pesquisadores para estudo da sua flora e fauna, e obteve apoio e recursos para a construção da Casa do Naturalista, ainda hoje utilizada como base de apoio para pesquisa. Também descreveu a fisionomia da vegetação, coletou e estudou inúmeras espécies vegetais, especialmente as orquídeas, várias delas novas para a ciência.
A coleção de Paranapiacaba inclui 42 tipos nomenclaturais, dos quais 24 são de espécies de orquídeas. Outros estudiosos, como Brade, Edwall, Gehrt, Handro, Luederwaldt, Mattos e Usteri, também contribuíram para o registro da flora local no herbário do Instituto de Botânica em São Paulo.
A Reserva Biológica está situada entre as coordenadas “23o46’00 -23o47’10" S e “46o18’20 - 46o20’40" W, à altitude de 750-891 metros.
Em seus 336 ha. predomina relevo montanhoso, com o ponto mais elevado - Mirante - voltado para o vale do Rio Mogi; a declividade diminui em direção ao bairro de Campo Grande. Pelos seus vales e baixadas correm vários córregos que contribuem para a formação de rios maiores, como o Rio Grande, que é um dos principais formadores da Represa Billings.
A vegetação da Reserva, composta por florestas e campos nativos, entremeados por manchas esparsas de matas mais baixas, é predominantemente secundária.
Testemunhos de mata primária, no entanto, são encontrados em locais mais acidentados e protegidos da poluição atmosférica. Ainda hoje, podem ser observados na mata de encosta desde árvores emergentes com mais de 20m de altura até árvores mais baixas com cerca de 3m, arbustos, grande variedade de ervas, epífitas e poucas lianas de caules espessos.
Na época da implantação do projeto, já eram bastante evidentes os efeitos dos poluentes atmosféricos sobre a fisionomia, composição e estrutura da vegetação da Reserva de Paranapiacaba.
O polo petroquímico de Cubatão exerceu forte influência na mata de encosta, devido o alto grau de poluição emanado por suas chaminés. Quem primeiro fez denúncia pública desse problema foi a Prof. Nanuza de Menezes, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, por volta do ano de 1980.
A partir desse fato, surgiram estudos no sentido de se eliminar o problema, evitando dessa forma prejuízo maior para o ecossistema, bem como retirar de Cubatão a pecha de cidade mais poluída do planeta.
Após décadas, verifica-se uma melhora considerável na situação, mas ainda se pode observar os efeitos dos danos passados, bem como da poluição ainda existente.
Apesar de todos os problemas enfrentados a reserva segue no seu papel de núcleo de estudo da flora e fauna regionais, contribuindo para aperfeiçoar o conhecimento de nosso corpo científico.
É, dessa forma, um grande orgulho para esta vila de Paranapiacaba abrigar tão importante reserva biológica de nossa combalida Mata Atlântica.
Os animais e plantas exibidos não foram encontrados na Reserva Biológica, e sim, na Mata Atlântica, na região de Paranapiacaba.